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Envelhecimento saudvel

24/08/2018

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Entrevista publicada na Edição 41 do Fator A, lançada em agosto de 2018/ Entrevista e edição: Raphael Ramirez

Atividades físicas, dieta saudável, consultas médicas periódicas. São várias as dicas elaboradas por uma vasta gama de profissionais para se alcançar um envelhecimento saudável. Principalmente hoje em dia, cujo acesso às informações são mais fáceis e democráticos. Mas será que dá para confiar em tudo o que lemos? O Doutor José Mario Tupiná Machado é um dos mais famosos e renomados nomes do país na área da gerontologia, realizando cursos e palestras por todo o Brasil, sempre com muito bom humor e informações precisas.

O currículo do Dr. Tupiná é extenso: graduado em Medicina pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (1981), especialista em Geriatria e Gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia e pela Associação Médica Brasileira (1994), doutorado em Gerontologia Biomédica pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2006). Atualmente é professor Adjunto de Geriatria da Escola de Medicina da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, responsável técnico pelo Lar dos Idosos do Tarumã, coordenador da Equipe Interdisciplinar do Asilo São Vicente de Paulo, chefe do Serviço de Geriatria da Santa Casa de Curitiba e supervisor do Programa de Residência Médica em Geriatria da Santa Casa de Curitiba. Confira abaixo uma entrevista concedida pelo Dr. Tupiná especialmente para o jornal Fator A, com alguns dados sobre o envelhecimento da população brasileira, dicas para uma vida saudável e alguns ensinamentos que podem melhorar o seu dia a dia.

APABAM - A população idosa, nas últimas décadas, tem vivido cada vez mais e com mais qualidade de vida. A que o senhor atribui este aumento na expectativa de vida da população?

Dr. José Mario Tupiná Machado –
Um dos fatores pelos quais as pessoas estão vivendo mais é que elas estão mais esclarecidas, bem informadas, com mais acesso a informação. O conhecimento está sendo democratizado nas últimas décadas, e isto faz com que as pessoas tenham mais acesso às orientações de como conduzir uma vida saudável. Outro aspecto que vejo é o seguinte: o número de idosos está aumentando no sentido absoluto, mas muito mais no sentido relativo. A proporção de idosos, comparado com a população em geral, tem aumentado porque tem diminuído a natalidade. Cada vez nasce menos gente. A maioria dos casais hoje quer ter um filho; outros não querem ter nenhum. Para se ter uma ideia, hoje a velhice já é considerada a fase mais longa da vida, começando em torno dos 60 anos de idade. As pessoas acima desta idade já representam uma parcela muito grande da população. O Brasil é considerado um país velho: a Organização Mundial da Saúde considera um país velho todo país que tem mais de 8% da população com mais de 60 anos. O Brasil já alcançou desta marca.

As pessoas estão optando por um estilo de vida mais saudável, seguindo orientações médicas, mantendo atividade física, uma dieta mais adequada, e o que a gente tem notado que ajuda muito neste processo de longevidade, que tem sido pouco falado, é a questão da espiritualidade. As pessoas que investem na dimensão espiritual e que buscam paz de espírito, que buscam viver sem conflitos, num ambiente familiar, social e profissional com uma maior harmonia, elas têm uma chance muito maior de viver mais. Há também a evolução da ciência. Antigamente as pessoas morriam precocemente de diabetes, hipertensão, AVC... Viviam, em média, até os 30, 35 anos, e chegavam nesta idade já com um membro amputado, sem enxergar, com insuficiência renal, etc. Hoje, o avanço da ciência, além da democratização, do acesso aos remédios e tratamentos, nos possibilita ver pacientes diabéticos centenários, por exemplo. Há pessoas que passam a vida toda com alguma doença, mas sob controle e orientações médicas, em tratamento.


APABAM - A visão da população em relação aos idosos tem mudado com o tempo?

Dr. Tupiná –
Tem mudado, mas muito lentamente. Ainda há um preconceito muito grande, as pessoas querem evitar a velhice e ter uma juventude eterna. Isto passa muito pela questão estética: o jovem é saudável e bonito, e o velho é doente e feio. Ter ruga passou a ser algo que impacta na beleza, então a opinião pública hoje busca a beleza estética através de cosméticos, cirurgias reparadoras, sempre no sentido de vender uma imagem de juventude eterna. A gente vê muitos idosos sem nenhuma ruga na face, graças a procedimentos que visam manter o aspecto jovial. Mas a gente sabe que não existe rejuvenescimento; existem procedimentos que simulam uma idade menos avançada, mas não tem como voltar atrás. A terceira idade é uma fase na vida como qualquer outra, então precisamos quebrar este paradigma. A velhice está longe de ser a melhor idade; melhor idade é aquela em que você se sente bem, independente da sua idade cronológica, mas baseado no fato da gente saber que o envelhecimento é inerente à vida, afinal só envelhece quem está vivo. Uma frase que eu sempre digo é “Envelhecer é um privilégio”, afinal envelhecer é poder usufruir de todas as fases da vida. Infelizmente, ainda existe muito preconceito com a velhice. Para muitas pessoas, a velhice significa ser obsoleto, ser desatualizado, ser um peso na sociedade, e por conta disto buscam um elixir da juventude a qualquer preço.

APABAM - Antigamente, a aposentadoria era vista como um ponto final na vida das pessoas. Hoje em dia, esta concepção mudou?

Dr. Tupiná –
Eu sempre dou a seguinte orientação às pessoas: aposentem-se o quanto antes, mas não parem de trabalhar jamais. Manter-se ativo fisicamente, intelectualmente, socialmente, politicamente, manter o direito de exercer a cidadania. Outra brincadeira que eu sempre faço é que jamais deveria dar de presente para aposentados nem pijama nem chinelo, porque este é um estímulo para que o indivíduo fique enclausurado. O sujeito se aposenta, às vezes precocemente, e ele ganha uma oportunidade de fazer aquilo que sempre quis fazer, mas não teve a oportunidade. No caso dos Apabeanos, a pessoa era bancária, trabalha no caixa da agência durante algumas décadas e se aposenta. Será que ele gostaria de manter esta mesma atividade ou tem a vontade de abraçar outra profissão, outra área do conhecimento? Seria muito interessante se ele tivesse a oportunidade de, ao se aposentar, e quanto mais precocemente isto acontecer, possa buscar algumas atividades, que além de um retorno econômico, também tragam alguma satisfação pessoal. Aproveitar o quanto antes, mas parar de trabalhar jamais. O indivíduo que não se mantem ativo intelectualmente facilita a atrofia cerebral, a depressão, cria um ambiente propício para uma série de doenças.

APABAM - Quais as atividades que mais colaboram para um envelhecimento saudável e feliz?

Dr. Tupiná –
Se a gente tiver que dizer qual é a sua prioridade, a sua orientação fundamental para uma longevidade saudável, é a atividade física. O indivíduo que se mantém fisicamente ativo, esta informação já nem é tão recente, há várias comprovações científicas, a atividade física, melhora a memória do praticante. Além de melhorar a circulação, a respiração, diminuir colesterol, evitar obesidade, manter a circunferência abdominal estável, a musculatura e o esqueleto saudável, além de tudo isto, já está provado que a prática de atividades físicas interfere positivamente na memória. Em segundo lugar eu indico uma boa dieta, colorida, rica em vegetais, em fibras, a dieta clássica, do mediterrâneo, pobre em gordura saturada.

APABAM - Qual o tipo de comportamento tóxico que prejudica um bom envelhecimento?

Dr. Tupiná -
Tabagismo, alcoolismo e vida social inativa, aquele indivíduo que se isola. Estes são os fatores principais que interferem na longevidade e envelhecimento saudável. O ambiente familiar, profissional, social e escolar são muito importantes para uma vida saudável.

APABAM - Quais as atuais principais demandas da população desta faixa etária que precisam ser discutidas?

Dr. Tupiná –
Eu acho que é esta quebra de paradigma e preconceito, a pessoa acaba se sentindo rejeitada e excluída porque a sociedade acaba valorizando, motivando, estimulando as faixas etárias mais baixas. Felizmente, nos últimos anos, já tem surgido, inclusive, manequins idosas, pessoas que estão tendo retorno econômico, rendimento, desfilando. Começa a existir roupas adequadas para esta faixa etária; mas eu sinto que a sociedade ainda está muito longe do ideal. As pessoas idosas não têm espaço na sociedade, não tem ambientes adequados e há um preconceito ainda muito grande. Eu ainda escuto muito isto no meu consultório: “O senhor disse que é para a gente ter uma vida social ativa, mas aonde a gente vai, doutor?”. Ainda não tem ambientes adequados que respondam à realidade dos idosos, que possam fazer com que eles frequentem e se sintam acolhidos.

APABAM - O senhor realiza muitas palestras cujo tema é a busca por um envelhecimento saudável. As pessoas têm se preocupado com esta questão ultimamente ou continua sendo um assunto relegado a segundo plano?

Dr. Tupiná –
As pessoas que hoje estão com 90 anos, se você perguntar a elas como elas se imaginavam nesta idade, a grande maioria vai te responder que nunca se imaginou com 90 anos. Antigamente, este era o modelo. Hoje em dia isto mudou: as pessoas já estão se preparando e se antecipando, buscando recursos. O que nos preocupa enquanto especialistas da área, geriatras e gerontólogos, é que algumas pessoas, no afã de ter uma velhice saudável, busquem precocemente recursos que não são reconhecidos cientificamente. Às vezes as pessoas buscam alguns procedimentos, alguns medicamentos, algumas substâncias que prometem uma manutenção da juventude, mas que são orientações enganosas. Acabam explorando a vaidade humana sem trazer um benefício real.

APABAM - Qual o maior diferencial desta faixa etária em relação às outras?

Dr. Tupiná -
Eu diria que é a sabedoria. Porque independente do grau de escolaridade, diplomas e habilitações que o indivíduo tenha adquirido, a vida por si só pode não habilitar, mas ela capacita. À medida que você vive e adquire experiência, se submete a obstáculos e adversidades, conquistas e desafios, você amadurece. E à medida que você amadurece, você reestrutura, reavalia a sua escala de valores, e começa a dar importância a coisas que realmente são importantes, deixando de lado coisas supérfluas. Há algumas pesquisas que perguntam o que é mais importante para você, e a resposta varia de acordo com a faixa etária, escolaridade, nível socioeconômico; mas à medida que o indivíduo é maduro do ponto de vista psicoafetivo, ele tem uma tendência muito forte em dizer que o importante é a paz de espírito, a relação familiar adequada, realização pessoal e profissional. Se a velhice pode nos trazer algum aspecto positivo, eu acredito que a principal é a sabedoria.

Serviço
Tupiná Saúde – Capacitação, Saúde Envelhecimento
Rua da Paz, 195, Conj. 106, 1° Andar, Alto da XV, Curitiba – Paraná
Fone: (41) 3262-1082/ contato@tupinasaude.com.br

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