Por Onde Anda - Antonio Ferreira Neto

01/10/2018

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* Texto publicado originalmente em nosso jornal Fator A, edição 27, de dezembro de 2012
Edição: Raphael Ramirez


Aos 82 anos, vivo em Curitiba, sou ainda um administrador ativo, como síndico de um agradável condomínio, ao lado da pequena praça Suíça com suas araucárias majestosas, além de zelar pela felicidade de uma grande família.

Alcançar este marco com relativa saúde e grande paz de espírito é consequência de minha forte perseverança e da minha formação pessoal e profissional. Graças a Deus, tive e ainda tenho a honra de conviver com pessoas que me ajudaram a conquistar esta condição: meus pais (a mãe Maria da Glória está com 103 anos), meus avós, minha eterna companheira Terezinha e, meu mestre Avelino Vieira.

A minha maior oportunidade e satisfação profissional foram trabalhar muito próximo com o Sr. Avelino, de 01/12/1952 a 03/09/1974, pessoa que influenciou sobremaneira a minha formação, não só profissional como pessoal, sempre oferecendo seus sábios conselhos, ensinamentos e exemplos de como proceder no dia a dia que, diga-se de passagem, era bastante movimentado.

Nesse longo período de mais de 46 anos no Bamerindus e mais três no Meridional, muitos foram os acontecimentos que eu participei ou presenciei e que poderiam ser contados, mas, vou recontar um que considero muito interessante.

Lá pelos idos de 1961, o Sr. Avelino, seu filho Claudio e eu, estávamos viajando, visitando cidades no oeste catarinense a procura de locais para abertura de agências, sendo que o nosso próximo destino era Concórdia. O dia estava muito quente e, antes de terminar a subida de uma serra, a mangueira do radiador do jeep furou, esgotando-se quase toda a água do motor. Enrolei bastante fita isolante na mangueira e continuamos a viagem, porém, alguns quilômetros depois a mangueira tornou a estourar. A situação estava difícil, pois a estrada não tinha nenhum movimento e além do mais era um domingo. Lembrei que no pé da serra, poucos quilômetros atrás, havia um pequeno vilarejo chamado Ipumirim. Sugeri para o Sr. Avelino voltar até o vilarejo, coloquei o jeep em ponto morto, desliguei o motor e descemos a serra. Uma parte dos seus habitantes estava jogando futebol num pequeno campo de terra. Não tinha a menor possibilidade de encontrar uma mangueira para o jeep, quando avistei um caminhão. Perguntei quem era o proprietário e este logo apareceu. Propus colocar o jeep sobre o caminhão para que ele nos levasse até o nosso destino. Ele concordou, acertamos o valor do serviço e resolvemos a situação de maneira bem simples: havia um barranco onde o caminhão encostou de ré, eu o contornei e subi o jeep no caminhão pelo barranco. Seguimos viagem, o Sr. Avelino na cabine com o motorista, eu e o Claudio no jeep em cima do caminhão. Chegamos altas horas da madrugada em Concórdia. Após descarregar o jeep, paguei os 1.500,00 combinados com o motorista (não lembro a moeda corrente da época) quando o Sr. Avelino me chamou do lado e falou:

- Você deu somente isso para ele?

- Sim, foi o que ele pediu.

- Ferreira, esse foi o preço do transporte. E o resto? É um domingo, ele estava desfrutando do convívio com seus familiares, se distraindo com seus amigos, e o principal, a sua boa vontade? Isso tudo não tem preço. Dê mais 1.500,00 para ele.

Aquele bom senhor ficou surpreso, disse que estava errado, expliquei, ele aceitou dizendo que não sabia como agradecer tanta generosidade. O Sr. Avelino pegou seu cartão pessoal e entregou ao motorista, dizendo:

- Tudo o que você precisar, vá a qualquer agência do Bamerindus, apresente este cartão e peça para telefonarem para mim que eu mandarei atendê-lo.

A surpresa foi imensa, o motorista emocionou-se de tal maneira que quase chegou às lagrimas, agradeceu muito e disse:

- Então o Sr. é o Presidente do Bamerindus? Quando eu iria imaginar que o meu velho caminhão transportaria pessoa tão importante. Se eu contar, ninguém vai acreditar.

Assim era a personalidade do Sr. Avelino. Sempre muito justo, sempre reconhecendo o trabalho realizado, muita simplicidade, sempre acreditando e valorizando as pessoas, principalmente aquelas que trabalhavam com ele.

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